De onde vim
Nasci no meio do século passado — 28 de julho de 1957, Porto Alegre. Mas essa data é só um ponto de chegada. O caminho até mim começou muito antes, do outro lado do oceano, num vapor que cortou o Atlântico por três meses carregando um menino de dezessete anos que ainda não sabia que seria meu bisavô.
O outro lado do mar
Giuseppe Guaraldi nasceu em 20 de junho de 1872, em Ferrara, na Emilia-Romagna. Não era de famílias ilustres — era filho da terra, agricultor. Aos dezessete anos deixou a Itália e enfrentou três meses de navio a vapor até pisar no Brasil. Não sei o que ele levava na bagagem. Sei o que trouxe: a coragem silenciosa de quem planta raiz em chão desconhecido.
Instalou-se na colônia de Jaguari, no Rio Grande do Sul. Dizem que o nome da cidade veio da quantidade de jaguares — onças — que habitavam a região naquele tempo. Meu bisavô, menino do norte da Itália, foi construir vida onde as onças ainda andavam soltas.
Casou-se com Palmira Badinelli, nascida em 28 de fevereiro de 1875 em Casaloldo, província de Mantova, Lombardia. Tiveram sete filhos: quatro homens — Primo, Celeste, José e Ernesto — e três mulheres — Oraides, Ida e Melânia.
Mas a vida nunca foi gentil com todos por igual. Ernesto morreu na guerra, na própria Itália. Oraides tornou-se freira e adotou o nome religioso de… Melânia. Exatamente o nome da irmã mais nova. Como se, ao consagrar-se, quisesse preservar dentro de si a menina que ficou. A Melânia de verdade casou-se com um estancieiro criador de gado — homem de posses no Rio Grande do Sul.
Giuseppe faleceu em 26 de março de 1933, em Asola, Mantova. Palmira partiu em 1950, na mesma cidade italiana. A história deles terminou onde começou, mas as ramificações já estavam plantadas do outro lado do mundo.
A polenta e a força
Meu avô Celeste, um dos filhos homens de Giuseppe, casou-se com Ana Eulália. Tiveram um único filho: meu pai, Antão.
Aqui entra uma história de resistência que ninguém conta. Os italianos daquela época — meus avós, meus bisavós — alimentavam-se quase exclusivamente de polenta. Farinha de milho. Era o que havia. Minha avó Ana Eulália perdeu muitos filhos nascituros, porque a desnutrição atravessava gerações: os descendentes sobreviviam frágeis, e as gestações chegavam ao fim com pouca saúde.
Meu pai veio forte. Sobreviveu onde outros não conseguiram. E foi por ele que eu vim.
Filho único. Antão carregava nas veias a teimosia de quem já nasceu contrariando as probabilidades.
A margem catarinense
Do lado da minha mãe, Donária, a história também é de terra, mas de outra paisagem. Catarinense de Araranguá, ela veio de uma família de sete irmãos também — curiosamente, quatro homens e três mulheres, a mesma geometria dos Guaraldi. Meus avós maternos, Seu Antônio e Dona Otília, moradores do Arroio do Silva, geraram Alvim, Boaventura, Elviro, Manoel, Donária, Maria e Maurina.
Maria e Maurina ainda estão vivas, morando em Criciúma. Testemunhas de um tempo que já se foi, guardiãs de memórias que ainda não escrevi.
Cataúcho
Nasci em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Mas sou filho de mãe catarinense e de pai gaúcho — e isso me deu uma identidade que não cabe numa palavra só. Há quem diga que sou gaúcho. Há quem diga que sou catarinense. Para mim, sou os dois. Cataúcho — inventei o termo para caber inteiro.
Hoje moro no Bairro dos Ingleses, em Florianópolis. Santa Catarina. O mar está perto, e o Rio Grande também — dois Estados que fazem divisa, laços próximos como os das famílias que me formaram. Na origem, porém, são dois países distantes. Continentes diferentes.
O que ainda está por vir
Mas a distância não será empecilho. Minha prima Giuseppina — a Giusi — é filha da tia Ida, irmã do meu avô Celeste. Dramaturga e escritora, ela já escreveu um livro sobre a família Guaraldi em homenagem à mãe. Mora em Desenzano del Garda, à beira de um lago no norte da Itália. Um lugar que existe mais nos sonhos do que nos mapas.
Ano que vem irei visitá-la. Atravessar o oceano no sentido contrário do que fez meu bisavô. Não vou de vapor, não vou levar três meses. Mas vou carregar a mesma coisa que Giuseppe trouxe: a coragem silenciosa de quem planta raiz — só que, dessa vez, para colher o que foi plantado há mais de um século.