Vida Familiar

A mesa da minha avó

22 de julho de 2026 · 6 minutos de leitura
Fogão a lenha antigo com chaleira, ao fundo uma mesa de cozinha com toalha xadrez à meia-luz

Eu chegava da faculdade por volta das onze, às vezes meia-noite. Morávamos numa casa antiga, daquelas em que o quarto de hóspedes ficava do lado de fora, separado do corpo principal por um corredor estreito de pintura descascada de cor verde que o tempo tinha deixado meio desbotado. Era ali que minha avó Ana Eulália dormia.

Do portão da frente, antes mesmo de enfiar a chave na fechadura, eu já ouvia. Um som baixo, ritmado, inconfundível: os chinelos dela arrastando no chão. Ela tinha quase setenta e oito anos e uma daquelas audições seletivas que os velhos desenvolvem — não escutava o telefone tocando na sala, mas ouvia o portão abrir a vinte metros de distância.

"Eu ouvia os chinelos dela arrastando no chão antes mesmo de entrar em casa. Era o som de alguém que esperou."

Eu entrava pela porta da frente e seguia direto para a cozinha. Não porque tivesse fome — embora sempre tivesse —, mas porque sabia que ela já estava lá. E de fato estava. Encontrava-a curvada sobre o fogão a lenha, assoprando as brasas que já estavam quase apagadas, com aquele cuidado de quem sopra uma vela de aniversário que insiste em não acender.

O fogão a lenha era antigo, pesado, manchado de fuligem e de anos. Nossa casa era localizada em zona urbana central e tinha fogão a gás; porém quando a Vó veio morar conosco meu pai, seu filho único, instalou o fogão a lenha furando o teto para saída da chaminé, pois sabia que ela gostava de fogão a lenha, e a economia indicava.

Durante o dia, minha "boadrasta" Marlene cozinhava ali o feijão, o arroz, o molho de tomate que perfumava a casa inteira. Ela se adaptou! Mas à noite, quando o fogo já tinha virado cinzas mornas, era a minha avó quem ressuscitava as brasas com a paciência de quem já fez isso mil vezes.

Ela se virava e me olhava com aqueles olhos pequenos e brilhantes que eu nunca soube dizer se eram castanhos bem claros ou verdes — uma cor que mudava conforme a luz e o humor. E dizia, sempre, invariavelmente:

— Vamos tomar um cafézinho?

O café que era janta

Mas não era café. Quer dizer, até tinha café — e era bom, as vezes passado na hora mesmo, naquele coador de pano que deixava o líquido escuro e cheiroso como só o café de casa de avó consegue ser. Mas o que ela realmente fazia era aquecer a janta.

Enquanto a água fervia e o pó soltava o aroma pelo ar morno da cozinha, ela tirava as panelas da geladeira — arroz, feijão, alguma carne ou legumes do almoço — e colocava sobre a chapa do fogão a lenha, que ia esquentando devagar, como tudo naquela casa. A mesa já estava posta. Não sei como, mas estava. Talvez ela deixasse pronta antes de dormir. Talvez fosse a primeira coisa que fizesse quando ouvia meus passos.

A mesa era pequena, de madeira também de cor verde, coberta com uma toalha de xadrez vermelho e branco, com os cantos ligeiramente desfiados. Dois pratos, dois copos, os talheres alinhados do jeito torto que só ela conseguia fazer parecer certo. Umas fatias de pão, ou alguns pãezinhos as vezes. E no centro, uma garrafa térmica que provavelmente estava ali desde a tarde, esperando o café que estava passando.

Nós dois jantávamos àquela hora que não era recomendada para ninguém — nem para mim, que era jovem e tinha o estômago de um estudante, quanto mais para ela, que estava perto dos setenta e oito anos. Mas a medicina e o bom senso não tinham vez ali. O que tinha vez era o ritual.

As conversas da madrugada

Enquanto comíamos, ela perguntava da faculdade. Eu falava das aulas, dos professores, dos colegas — histórias que no dia seguinte eu já teria esquecido, mas que naquela hora, sob a luz amarela da lâmpada da cozinha, pareciam importantes. Ela ouvia com atenção, fazendo pequenos comentários, às vezes discordando de algo que nem entendia completamente — mas discordava por instinto, como quem torce por um lado numa partida que não está assistindo.

Outras vezes as perguntas eram sobre o time do coração, o Internacional. O Colorado dos Pampas! Sempre perguntava sobre a renda do jogo. Se havia bastante público. Como boa italiana se preocupava com as finanças do clube (R$). Eu já tinha ouvido aquelas perguntas umas dez vezes na semana, mas nunca cansava — porque cada vez ela acrescentava um detalhe novo na pergunta, como se a memória fosse um livro que se reescrevia sozinho.

O relógio na parede marcava uma da manhã, depois uma e meia. A casa estava em silêncio absoluto, exceto pelo estalar ocasional da lenha que ainda resistia no fogão e pela voz mansa da minha avó, que ia ficando mais lenta conforme o sono se aproximava.

Quando terminávamos, eu lavava a louça — ela não deixava, mas eu insistia — e a acompanhava de volta ao quarto, pelo corredor estreito de tinta verde desbotada. Os chinelos agora arrastavam num ritmo diferente, mais cansado. Antes de fechar a porta, ela sempre dizia a mesma coisa:

— Amanhã a gente toma outro cafézinho.

O que ficou, muito depois

Minha avó se foi há mais tempo do que eu gostaria de contar. A casa não existe mais, o fogão a lenha virou sucata ou lembrança de outro morador, e os chinelos — aqueles chinelos que eu ouvia do portão — provavelmente foram parar em alguma caixa ou em algum canto que ninguém mais lembra.

Mas o ritual ficou. De um jeito que eu nunca planejei, de um jeito que me escapa por entre os dedos quando tento explicar.

Hoje, quando recebo alguém em minha casa, colocamos a mesa. Minha esposa Leka tem prazer em montar uma mesa bem sortida e enfeitada com flores quase sempre. Mesmo que seja só para um café. Mesmo que a pessoa diga que não precisa. Mesmo que seja tarde da noite e a hora não seja recomendada. Porque eu aprendi, naqueles jantares silenciosos da madrugada, que o amor não está nos grandes gestos — está na mesa posta quando você chega, no fogo que alguém assoprou para reacender, na pergunta que é sempre a mesma e nunca perde o sentido:

— Vamos tomar um cafézinho?

O que ela me ensinou, sem nunca ter dito com essas palavras, é que a gente não espera alguém porque tem fome. A gente espera porque estar à mesa juntos, mesmo às onze da noite, é o que transforma uma casa num lugar onde se pertence. Obrigado Vó por ter me ensinado tanto.

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