Vida Profissional

O menino do frigorífico

Porto Alegre, anos 1970 · 5 minutos de leitura
Bancas de frutas e verduras de um supermercado antigo, com caixas de madeira e luz suave

Meu cunhado Paquito passava às quatro da manhã recolhendo os funcionários pelas ruas ainda escuras de Porto Alegre. Eu não entrava nesse horário — meu turno começava às sete —, mas a imagem da Kombi varando a madrugada sempre me pareceu o retrato mais fiel do que era trabalhar no Zaffari: um compromisso que começava antes do sol e terminava bem depois dele. A filial da Av. Bordini foi o primeiro a ficar 24 horas aberto.

Eu tinha catorze anos.

Minha irmã Júlia, supervisora da loja, conseguiu a vaga. Ela começou na matriz da Av. Protásio Alves. Eu comecei como empacotador na Bordini. Naquele tempo as compras iam em sacos de papel pardo, e a gente tinha que aprender a distribuir o peso para o fundo não rasgar no meio da rua. Lata embaixo, verdura em cima, pão por último. O Seu Pedro, o Seu Cláudio e o Seu João Zaffari passavam pelo corredor com aquele olhar de quem construiu tudo do zero, e você sabia que estava sendo observado mesmo quando eles não diziam nada.

O meu horário era das sete ao meio-dia e da uma às quatro. Uma hora de almoço no restaurante da própria empresa. Eu almoçava correndo e depois sumia.

O frigorífico das frutas era meu esconderijo. Entre as caixas de maçã, ameixa roxa e os engradados de alface, eu tirava um soninho de vinte minutos que valia por uma noite inteira. É que depois de bater o ponto, às quatro da tarde, eu ainda tinha outra jornada: estudava das sete às onze e meia da noite. Catorze anos, dois empregos — um no supermercado, outro na escola.

Depois de um tempo me promoveram a supridor de hortifrutigranjeiros. Significava repor as bancas, selecionar o que estava passado, deixar tudo com cara de fresco para a dona de casa que chegava de manhã. Eu gostava mais do que empacotar — mexia com as mãos, sentia o cheiro da terra nas batatas, nas cenouras, o perfume do mamão maduro. Lembro que eu subia uma rampa íngrime com um balaio grande de vime cheio de laranjas nos ombros. Outra lembrança é a de um estrangeiro, não lembro se polonês ou alemão, ele pegava uma ou duas pimentas dedo-de-moça no expositor e provava in natura, ali mesmo, na hora. Dizia que era para ver se estava fresca. Eu achava aquilo muito estranho, mas também muito corajoso.

"Catorze anos, dois empregos — um no supermercado, outro na escola."

Mas o que me marcou mesmo foram as entregas em domicílio. De vez em quando a gente era liberado para levar as compras na casa dos clientes. E ali, subindo escadas com sacolas pesadas, aprendi uma coisa que nenhum livro da escola me ensinou: respeitar quem tem mais idade. Muitos eram velhinhos, moravam sozinhos, e a gente acabava entrando, colocando as compras em cima da mesa, trocando duas palavras. Às vezes era a única conversa do dia daquela pessoa.

Foi num Natal que aconteceu o episódio que nunca esqueci. Subi três lances de escada com as compras de uma senhora. Quando cheguei lá em cima, suado e ofegante, ela me deu uma gorjeta. Não me lembro do valor exato, mas lembro do susto — era muito mais do que eu esperava. Juntei aquela gorjeta com outras menores que fui recebendo ao longo de dezembro e, na véspera de Natal, comprei presentes para toda a família. Catorze anos e a sensação de prover alguma coisa pela primeira vez. Não tem salário que pague essa memória.

Não durou muito. O ritmo era pesado demais. As folgas eram raras e eu mal tinha tempo para estudar — quanto mais para o lazer que um garoto de catorze anos merecia. Eu adorava jogar futebol e não tinha mais horário para isto. Meu rendimento na escola começou a cair. Foi uma decisão difícil, porque eu gostava de trabalhar, gostava da independência, gostava de me sentir útil. Mas alguma coisa tinha que ceder.

Pedi demissão.

Saí do Zaffari com três coisas: calos nas mãos e braços fortes, algumas notas no bolso e a compreensão de que trabalho de verdade não tem atalho. Aprendi a olhar nos olhos de quem estava do outro lado do balcão — fosse um chefe exigente, uma senhora solitária ou um colega tão cansado quanto eu.

Anos depois, já em outro emprego, fiquei sabendo que um colega daquele atual emprego tinha se casado com a herdeira da empresa. A vida dá voltas que nem a Kombi do Paquito recolhendo funcionário na madrugada — você nunca sabe quem vai sentar no banco de trás e que destino vai tomar.

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